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Ricardo Campanille

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    [sábado, novembro 12, 2005]


    Acredito somente naquilo que sinto, vejo, toco e me toca
    (Pt.1)

    Com raras exceções, sempre fui guiado pelas primeiras impressões e elas dificilmente se mostraram contraditórias à realidade conforme o tempo passado. Porém, elas são aliadas da intuição e essa muitas vezes ignorei. Minha preciosa intuição: toda vez que deixei de lhe ouvir e quis pagar pra ver o aconteceria se ouvisse a outra voz paguei com a dor. Sim, com a dor! Pois além da cabeçada vem o arrependimento, cravando feridas perniciosas “nas paredes da memória”. Fica aquela reverberação amplificadíssima na cabeça te dizendo e fazendo você imaginar as possibilidades resultantes do agir da forma antípoda.
    Quedas e mais quedas e, finalmente, aprendi que pra certos gostos não adianta procurar algo genérico, semelhante ou bom de outra forma pra substituir. Resultado: parei de procurar; e de me iludir também. Talvez, como que num estado letárgico continuei a vida. Mas tinha que ser assim. Ouvia muitas vozes, vindas de várias direções e me apontando as mais sinuosas e diversas trilhas repletas de verdades pessoais.
    Agora só vou realizar minhas tentações primárias. É... um dia Oscar Wilde me aconselhou, através da fala de Lord Henry, que a única maneira de se livrar de uma tentação é ceder-lhe. Frase que ecoou em minha cabeça por muito tempo até eu perceber que eu já a tinha aderido como estilo de vida nessa nova fase. Resgatei meus desejos mais contraditórios ao senso comum e voltei a sonha-los, vi flores desabrochando com o toque do sol em suas faces e enxerguei o lado ambíguo do meu ser respirando novos ares. É como uma viagem longínqua e vertiginosa que em questão de segundos te traz de volta à Terra mais forte e mais atento aos sinais misteriosos da vida. Foi intensa, muito intensa mesmo essa viagem, até confusa. Creio que assim como a da borboleta, minha vida de larva também foi dolorida, mas necessária e enfim, agora, depois de tanto me arrastar por caminhos que não queria, ostento belíssimas asas. E voei solitariamente, mas orgulhoso da minha exuberância e da minha liberdade. Passei por muitos lugares bonitos e vivi os prazeres que estavam abertos à minha curiosidade de lepidóptero, passei por algumas flores interessantes, ora apreciando o gineceu ora o androceu. Contudo, a viagem não podia parar. E o vazio me encontrava cedo. Um vazio que tocava meu peito e me fazia sentir o arfar de uma vida sem sentido, este vagar de risos efêmeros que nem a mais recente lembrança os aceita, tão momentâneos, tão insaciáveis e tão vazios.
    Já estava convencido que essa sensação seria, então, minha companheira eterna. Liberdade e vazio num casamento insano e cobranças perigosas. O que faltava? De fato, já senti na pele que é melhor viver só do que mal acompanhado. Mas é tão vazio! Fazer o que? A vida reservou isso pra mim, ou talvez, com a ajuda dela, eu tenha construído todo esse mundo pra mim e ainda não sabia bem como gozar completamente nele e nem como entregar minha alma a ele. Em todo caso sou livre. E afirmava ceticamente quando ouvia alguém, por acaso, falar de amor: entre duas pessoas não existe amor e sim interesses que como num contubérnio entre parasitas pudessem ser supridas certas carências fisiológicas, psicológicas, de afirmação social ou de ordem financeira! É o que mais vejo por aí, e pra mim esse padrão é inaceitável. Esse tipo de vida não combina com a liberdade que tenho.
    Amor mesmo, só conhecia o que tenho pela música, que é diferente, talvez o único possível, pois alimentava meus sonhos e minha perspectiva de os ver realizados e se não fossem esses sonhos, esse infindável amor por ela, pelos meus amigos Goblin que me envolvem diretamente nela e pela minha família que em grande parte contribuiu para eu ser o homem que hoje sou, que graça maior teria essa vida? Vou ter que viver pra sempre como um quebra-cabeça cujas peças foram perdidas em algum lugar do passado, talvez até mesmo em outro continente, mundo, galáxia ou nunca existiu e nem vai existir.
    E em bosques frios continuava o bater de asas, enquanto o Universo, sem que eu pudesse sequer imaginar, me trazia alguém livre como eu e que também só conseguiria entregar seu amor pra pessoa certa.
    E é aí que entra a primeira impressão; e de mão dada com a intuição.
    E como que por meio de um sopro divino, fora de tempo ou espaço ela chegou até mim e (será que por coincidência?) envolvidos por música e por tudo que acredito constituir meu universo. Olhares, falas, boas tentações e o beijo. Ah, o beijo... E logo na primeira vez que a beijei — aí ocorreu a primeira e inesquecível impressão — senti que ela era especial. Um beijo único vindo de alguém que parece ter saído de um sonho.
    Volta as embrionárias sensações: o olhar dela chegava até meu coração. Sua voz me encantava, sobretudo os assuntos que conversávamos. O beijo feito pra minha boca quase que era imaterial de tão perfeito! E depois de voltar daquele estado onírico causado pelos seus beijos, pensei: ela é única! Se por algum motivo eu não ficar mais com ela, se não der certo o que pra mim em minutos tinha acabado de começar, jamais eu encontraria alguém que pudesse me fazer feliz como ela me fazia naqueles instantes.
    Existe alguém sem defeitos? Pois bem, eu conheci alguém assim. Pelo menos pra mim. Tudo nela me agrada plenamente em todos os sentidos imagináveis e inimagináveis. Nunca senti nada parecido por ninguém em toda minha vida.
    Vozes dos vultos: “Isso é paixão, ilusões passageiras, quimeras!”.
    Minha voz interior, mais forte do que as trombetas que derrubaram os muros de Jericó: É AMOR! E o som dessa música ultrapassa todas as barreiras moleculares do meu corpo. Quando você o sente de verdade não há como se enganar. Meus mais íntimos pensamentos rompem seus casulos e me afirmam de várias formas. Avalio tudo que vivi e é clara a visão. A lembrança de cada situação que passei na vida me faz sentir e crer, diariamente, que só tiveram a finalidade de me preparar pra viver esse amor. O amor que eu só poderia conhecer estando com a pessoa certa e no tempo certo das páginas de nossas vidas. Desde então, minha vida tem cada vez mais se transformado em vida. Um sonho nunca sonhado sendo materializado, trazido pra esta esfera telúrica que agora é capaz de me mostrar suas multicores reluzentes de paz.

    Postado por :Ricardo / 0 comentários