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Ricardo Campanille

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    [quinta-feira, janeiro 12, 2006]


    Há momentos durante o dia em que apenas quero ser tocado pela supremacia do silêncio. E é justamente essa contemplação uma das mais difíceis de se alcançar num lugar como São Paulo.

    Uma cena diária

    Eu, caminhando logo cedo para ir ao trabalho, me deparo com uma avenida movimentada aonde o barulho dos motores, mesmo sendo bem irritante, é boa música perto do que ainda está por vir...
    Quem utiliza transporte público, alguma vez ao menos, já notou que nas janelas de ônibus e lotações há um adesivo com a lei que proíbe o uso de aparelhos sonoros dentro dos mesmos. Fora os diversos e particulares problemas que temos que enfrentar no trânsito, ainda há o de ser obrigado a ouvir músicas terríveis, quero dizer, barulho da pior espécie de acordo com a minha concepção.
    Todos os dias ao subir os degraus do carro minhas vias auditivas são atacadas por uma massa sonora que tem o poder até de mudar meu humor para o pior possível. O único antídoto é ligar meu “discman” no último volume para cobrir o som (barulho) ambiente que tanto me incomoda e, assim, poder me sentir melhor.
    Mas imaginando que eu esteja num dia em que eu queira sossego, ou seja, não estou afim de ouvir nem as músicas que curto, valerá as que eu odeio: pagode, sertanejo, rap e até axé de vez em quando, puta que pariu! São as únicas porcarias que essa raça gosta e acha que todos os passageiros têm que compartilhar com suas preferências; ou, o que é mais provável, não se importam se estão gostando ou não.


    Uma cena alhures, no passado

    Lembro-me de um episódio, quando eu estava cursando o 2° ano do Ensino Médio no Gabriel Ortiz, que é muito bom para usar como comparação:
    Havia um grêmio estudantil que organizava diversas atividades, sendo que uma delas era tocar música durante o intervalo, que pra mim era sempre uma tortura; nem preciso falar o porquê.
    Numa ocasião eu e meus amigos roqueiros fomos conversar com o presidente do grêmio, e o mesmo nos disse que se levássemos uma fita de qualquer banda que nós gostássemos ele tocaria.
    Já que ele disse qualquer, levamos uma banda nacional: Sepultura, mais especificamente o Arise. Advinha! Tocou até a metade da primeira música e tiraram porque achavam que era muito barulho. Detalhe: estávamos ouvindo sossegadamente, sem fazer roda ou qualquer espécie de bagunça, ao contrário dos pagodeiros que levavam uma parafernália de instrumentos de batucar, os quais ninguém sabia tocar e faziam uma zona desgraçada!


    Uma cena na caverna

    Imagino-me como um motorista de lotação e no meu carro só toca Sepultura, Pantera, Carcass, Brujeria e outras bandas de estilo semelhante. Então todos começarão a reclamar, pois gosto de um som que pra muitos é barulho (o mesmo que acontece comigo quando ouço os ritmos que odeio já citados, só que como sou minaria tenho que agüentar e ficar quieto).
    Resumindo: existe a merda da lei, eu olho pra ela todos os dias e me revolto porque não existe alguém que as faça cumprir. Ninguém é obrigado a ter que ouvir o que os outros gostam!!! Quando as pessoas estúpidas deste mundo vão aprender que a própria liberdade acaba quando invade a dos próximos? Porra!

    Postado por :Ricardo / 0 comentários