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Ricardo Campanille

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    [sábado, março 11, 2006]


    São estranhos, são muito estranhos os dias em que rompo meu invólucro crisálico. Tantas vezes isso já aconteceu, porém até hoje me surpreendo com as marcas herdadas da vida larval.
    E o ciclo continua: quando penso que cheguei ao ápice e estou pronto pra próxima etapa logo percebo que já me fora tolhida as asas e me encontro a rastejar novamente. Mas não é possível que tudo o que vejo seja uma miragem! Além de ser muito real, eu já a contemplei por muito tempo, já me estiquei até a ponta dos dedos pra alcançá-la, sei que é real, mas raramente chego perto.
    O destino... Às vezes creio nele. De uma forma ou de outra há caminhos que não podemos nos abster. E quando menos percebemos já o trilhamos até a metade e a porta de entrada por trás de sinuosas vias se esconde.
    Então, após tempos em tempos, quando o que era verdade no passado se torna uma mera ilusão, enxergamos (eu, meus demônios e meus anjos) nitidamente os fantasmas que criamos pra nos contentar com o intolerável.
    Achei algumas coisas que escrevi em alguns dias de desespero. E aqui, as palavras que em letras tremidas pintavam com tinta azul meu caderno continuarão me mostrando como costumo, não poucas vezes, ver o mundo que me espicaça diariamente.

    É como se tudo estivesse
    Começando a se dissolver,
    Os sentidos se perdem como se desse
    Pra subir até se envolver
    Em nuvens e no mesmo momento
    Voltar à Terra em tormento
    Absurdo e sem perceber o que realmente
    Acontece nessa fração de dor,
    Sibilando aos ouvidos dissonâncias insensíveis.

    ------------------------------------------------------------------------------------------------
    (texto escrito viajando pelo metrô, observando os transeuntes e refletindo sobre as minhas inquietações)

    Estamos aqui para sermos logo esquecidos.
    Mais rápido do que aquela imagem
    Que vemos passando na pressa angustiante
    De chegarmos ao destino que nos puxa
    Pelo pescoço até rastejarmos sem ar.
    Obcecados pela conquista de um troféu
    Que não é nosso; luta pela qual nem se tem objetivo.
    É a corrida pra se manter respirando...
    Qual era mesmo aquela imagem?
    Sim! Um subser comendo lixo
    Num canto desprezível deste mundo
    Surreal que, confortavelmente, chamamos
    De cidade, janelas, vidas que numa
    Estranha simbiose necessitam de caos.
    Olhos que da superfície da capa
    Grosseira tiram do interior até as fraquezas que não temos.
    Constroem com dedos ágeis uma nova imagem desta massa:
    Com etiqueta, valor e validade
    Esperando nas prateleiras urbanas
    Pra sermos comparados, comprados, consumidos.
    Enfim, considerados objeto plástico
    Somos logo substituídos por outro
    Que nesse instante já tem menos valor,
    Mas aquele conjunto de formas harmoniosamente
    Esculturais aprovam — é o que nós idiotas achamos — e o
    Mundo quer também entrar nessa fôrma conformista.
    Esqueça de vez! Até essa música de fundo é padrão,
    O rótulo inevitável se baseia no estereotipo comum
    E nessa inacabada metamorfose nos enganamos
    Outra vez, te falo novamente: esqueça tudo que ouviu!
    As palavras estão grafadas,
    As músicas gravadas
    E nós já somos um pouco menos humanos.
    Talvez anjos em nosso sono demoníaco.
    Mas com certeza já não sou o mesmo que escreveu tudo isso.
    Sou um semo-lunático a delirar por mais alguns dias.
    Mais esquecido que a história desta morada
    De inocentes crianças que de olhos vidrados
    Nas vitrines brincam de viver.

    ---------------------------------------------------------------------------
    (depois de alguns copos de gin em meu quarto)

    Sei que mais uma vez
    Vou odiar as influenciadas
    Palavras que borbulham em meu
    Insigne cérebro! E escrevo
    Mesmo assim, em minha embriaguez.

    Não há respostas para minhas
    Indagações sobre a vida.
    Tudo aqui é tão falso e
    Assim me tornei o reflexo de
    Centenas que me causam exagerado asco.

    Sorrindo e querendo ter uma arma
    De aniquilação em massa
    Sou a engrenagem que depende
    Das outras para fazer essa máquina
    De demência gerar força.

    Postado por :Ricardo / 0 comentários