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Ricardo Campanille

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    [quarta-feira, agosto 02, 2006]


    Enquanto eu continuar tentando correr mais do que minhas pernas suportam jamais respirarei o ar da superfície. Mesmo que todas as felicidades vivessem em meu derredor, ainda assim, alguma angústia invadiria meu coração, minha alma, toda a minha carne.
    Se... imaginar se... Minha mais espessa e firme corrente, aquela que prende meus tornozelos em imponentes e ancestrais rochedos, embaralha meu presente, esconde todos os ases. Querer muito e poder pouco, essa é a minha maior angústia. Esperar, esperar, esperar... tentando mexer descontralada e inocentemente, sem critérios ou estratégias, em todas as peças do tabuleiro — talvez um cavalo a mais seria boa ajuda, mas aquele já não pode voltar, agora só resta um, num movimento equivocado a derrota afia sua foice, contudo, como saber se ela não pode ser a salvação?
    E penso se... Assim, o derradeiro pesar das possibilidades senta sobre meus ombros de ossos fracos e prostro-me exausto. Respiro o ar viciado do porvir imaginário. Porém, nenhuma conclusão é capaz de convencer-me concretamente. Apago todas as luzes e me equilibro no alto do fio do muro; e no escuro cairei, tropeçarei na insegurança perante o desconhecido. De um lado há serpentes e do outro escorpiões. Só que mais adiante, de ambos os lados, há antídoto para todas as mais letais peçonhas. Alguma voz me disse em algum sonho de sono leve. E mais leve que pena, ziguezagueando nos braços do mais leve vento, vou caindo em direção ao lodo pegajoso. Agora quero banhar-me com a água mais límpida que há. E nesta fonte espectral recuperarei o vigor, a cor das minhas faces e dos meus lábios. Olho para o pequeno espaço que delimita meus limites e tento galgar para o fundo, em espiral, até alcançar o impenetrável. Acontece que chove muito, há muitas luzes dançantes e barulho de raiva celeste, e eu tenho medo disso.

    Chegou a estóica tempestade.
    Devastadora da tranqüilidade.
    Inimiga dos Paraísos inertes.
    Indiferente às ânsias terrestres.

    Quer renovar, à sua maneira nervosa,
    Inesperadamente, toda tendência sequiosa,
    Infrutífera, que sonha e espera
    A perfeição impossível nesta esfera.

    Não escolhe aonde precipitará sua radial
    Revolta, não sabe o que é bom ou mau,
    Justo ou injusto, só quer o movimento
    Dos sentidos que distraíram-se um momento.

    Postado por :Ricardo / 0 comentários