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[sexta-feira, agosto 18, 2006] Faz tempo que eu queria falar sobre isto, em mim habita um certo quê de exibicionista, ainda por cima é um daqueles que pouco tem para mostrar e, mesmo assim, faz questão.
Um pequeno filme exibi-se na tela de minhas recordações, a câmera entrou num recôndito que contempla novos ângulos, visões vergonhosas que precisam ser assistidas com a devida atenção. Visto minha fantasia de avestruz e escondo o rubor vicejante de meu rosto em minhas mãos trêmulas. Respiro fundo. Vamos lá! Olho adiante. E como num filme de David Lynch assisto a várias cenas que aparentam não se relacionarem, e toda a aparente confusão inerente à sua natureza desperta profundas e adjacentes reflexões, contudo com poucas conclusões para saborear, mas quando elas assim podem ser? Há inúmeros elos perdidos, talvez seja mister que a mesa onde repousa esse quebra-cabeça com peças perdidas seja chutada. Que tudo se espalhe, que a desordem cubra com seu manto negro os reflexos passados, que eu comece outra diversão com menos distração. Realmente, conforme passam-se os anos, é notável que as pessoas mudam alguns de seu hábitos e comportamentos (seja para pior ou melhor, no fim, quase nunca há certezas, às vezes o degrau que parece levar pra baixo é o que conduz ao ápice). O mais engraçado é que muitas vezes somos embalados pelo vício de carregar conosco as primeiras impressões que temos de outrem por um longo período, quando — acredito eu — por mais que alguém tenha características fortes, ninguém é imutável, alguns gostos mudam, algumas crenças desvanecem, outras florescem, algumas visões de mundo se transmutam, algumas borboletas batem suas asas e fogem em direção à luminosidade, algum momento de sobriedade predomina — um dia o abismo da alma escarra para fora aquilo que não suporta mais dentro de sua imensidão de trevas, sem gravidade, paralítica, aquilo que escondemos na fortaleza da não-exposição de certa raiz que faz parte de nossa representatividade. E assim sou eu, sempre me revelando de alguma forma diversa, expondo sob a luz de um ponto esquecido do palco mais um aspecto contraditório aos “Eus” envelhecidos, sempre querendo ser notado, talvez seja uma mania fortemente talhada em meus instintos, que nem se esforçam para tolher tais impulsos. E tenho certeza que há pessoas que não conseguem compreender, vêem uma imagem do passado, mesmo que seja um passado recente, no corpo presente, que não guarda mais todas as marcas de antes, elas foram, num processo de equação irracional, transpassando-se, costurando-se, multiplicando-se, diferindo-se. Já disse que sou borboleta, mas há quem, mesmo de óculos, ainda veja apenas a natureza morta pregada numa parede de espécimes estranhos. Postado por :Ricardo / 0 comentários |