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Ricardo Campanille

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    [segunda-feira, agosto 28, 2006]


    Um ano de namoro completou-se ontem. Nunca o tempo passou tão rápido pra mim. De acordo com o dito popular, tudo o que é bom dura pouco, e eu concordo plenamente. Quando estou ao lado de minha metade o tempo é sempre demasiado curto, é cada vez melhor estar em sua companhia, cada vez mais intensos são nossos momentos juntos e, conseqüentemente, cada vez que precisamos nos distanciarmos torna-se mais difícil suportar a ausência de alguém tão especial. E longe dela é impossível parar de pensar em todas as coisas magníficas que lhe dizem respeito, em todos os instantes maravilhosos e únicos que sempre passamos juntos.
    ...madrugada, dia 27/08, dia abençoado, o leve alumiar das velas, visão lúbrica do meu amor, a Perfeição em movimentos lascivos, o deleite da pele na pele, sentidos aguçados, o envolver-se na fragrância estimulante da minha deusa, tudo é um, e vasta era a sensação que nas vicissitudes de nossas carícias se propagava por nossos corpos, misturando nossas almas, nossas taras, nossas orientações, poder tudo, ser tudo, manifestar tudo aquilo que o corpo tenta limitar, inverter o lógico, transpassar a ordem, atribuir novas ordens, outras possibilidades, outros meios, plurais fins, proporcionar exóticas e inesquecíveis realizações... transmutação, de repente tudo fica completamente escuro pra mim, só posso sentir, e é indescritivelmente intenso o que sentia naqueles segundos, minutos, muitos minutos voando bem além de nossas percepções, aquele tempo em que a dor e o prazer se revezavam incessantemente, um segundo do primeiro, a supremacia duradoura do segundo, elevando a sensibilidade com essa mistura pungente que aflora a licenciosidade... então a ordem volta, volto também a enxergar e tempos após vertigens extremamente deliciosas derrama-se o néctar da vida, êxtase conjunto, foi uma noite sem igual... mergulho em águas espumantes, pureza, leveza, conforto, sono — terremotos aparentes, máquinas percorrendo os trilhos —, mas o sono foi breve, a hora não tardou em apontar sua chegada.
    Tudo foi perfeito, maravilhoso, surpreendente, lindo, mágico, deslumbrante e rápido, como sempre, o tempo é sempre contra nós, mas não reclamo não, é apenas uma observação. Tudo tem sua razão de ser; e quem sou eu pra questionar o Universo? Ele me presenteou com a pessoa que me completa, que me faz ser feliz todos os dias, que me anima a querer ser melhor em tudo o que faço, que me fez capaz de realmente amar, assim que toquei seus lábios pela primeira vez, e jamais esqueço desse dia. E nesse um ano que passou eu nunca me senti tão bem e tão realizado em toda a minha vida, graças a você, Renata, Te amo infinitamente e cada vez mais!

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    [sexta-feira, agosto 18, 2006]


    Faz tempo que eu queria falar sobre isto, em mim habita um certo quê de exibicionista, ainda por cima é um daqueles que pouco tem para mostrar e, mesmo assim, faz questão.
    Um pequeno filme exibi-se na tela de minhas recordações, a câmera entrou num recôndito que contempla novos ângulos, visões vergonhosas que precisam ser assistidas com a devida atenção. Visto minha fantasia de avestruz e escondo o rubor vicejante de meu rosto em minhas mãos trêmulas. Respiro fundo. Vamos lá! Olho adiante. E como num filme de David Lynch assisto a várias cenas que aparentam não se relacionarem, e toda a aparente confusão inerente à sua natureza desperta profundas e adjacentes reflexões, contudo com poucas conclusões para saborear, mas quando elas assim podem ser? Há inúmeros elos perdidos, talvez seja mister que a mesa onde repousa esse quebra-cabeça com peças perdidas seja chutada. Que tudo se espalhe, que a desordem cubra com seu manto negro os reflexos passados, que eu comece outra diversão com menos distração.
    Realmente, conforme passam-se os anos, é notável que as pessoas mudam alguns de seu hábitos e comportamentos (seja para pior ou melhor, no fim, quase nunca há certezas, às vezes o degrau que parece levar pra baixo é o que conduz ao ápice). O mais engraçado é que muitas vezes somos embalados pelo vício de carregar conosco as primeiras impressões que temos de outrem por um longo período, quando — acredito eu — por mais que alguém tenha características fortes, ninguém é imutável, alguns gostos mudam, algumas crenças desvanecem, outras florescem, algumas visões de mundo se transmutam, algumas borboletas batem suas asas e fogem em direção à luminosidade, algum momento de sobriedade predomina — um dia o abismo da alma escarra para fora aquilo que não suporta mais dentro de sua imensidão de trevas, sem gravidade, paralítica, aquilo que escondemos na fortaleza da não-exposição de certa raiz que faz parte de nossa representatividade.
    E assim sou eu, sempre me revelando de alguma forma diversa, expondo sob a luz de um ponto esquecido do palco mais um aspecto contraditório aos “Eus” envelhecidos, sempre querendo ser notado, talvez seja uma mania fortemente talhada em meus instintos, que nem se esforçam para tolher tais impulsos. E tenho certeza que há pessoas que não conseguem compreender, vêem uma imagem do passado, mesmo que seja um passado recente, no corpo presente, que não guarda mais todas as marcas de antes, elas foram, num processo de equação irracional, transpassando-se, costurando-se, multiplicando-se, diferindo-se. Já disse que sou borboleta, mas há quem, mesmo de óculos, ainda veja apenas a natureza morta pregada numa parede de espécimes estranhos.

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    [segunda-feira, agosto 07, 2006]


    É o Estado paralelo que parece mandar, daqui a pouco veremos as leis dele cingindo os cidadãos, admoestando sobre a nova tendência comportamental. Matar já não será um crime, nem roubar, estuprar e tudo mais, será a República que o Marquês de Sade um dia vislumbrou como a ideal.
    Aonde teremos que chegar para que os nossos legisladores comecem a mudar nossas leis absurdas? Eu já perguntei isso antes e não me canso de perguntar, aonde??? Alguém me diga, por favor! Será que hoje alguns inocentes morrerão na madrugada se a polícia sair matando por vingança? Espero que não! Mas se morrer não fará diferença, pois os “chapas brancas” têm segurança, carro blindado, não precisam se preocupar se têm ônibus ou lotações pegando fogo, bombas explodindo pela urbe, pessoas que trabalham se fodendo pra conseguir chegar no seu destino diário e depois voltar do dia laborioso, exaustivo.
    Ligamos a TV para tentar achar algum esclarecimento ou soluções e, depois de tudo, só ouvimos “abobrinhas”, é inacreditável! nosso governador é uma múmia, com aquela cara de alguém que esqueceram de enterrar — como diria a Clarice Lispector, cara que pede pra levar tapa. Só que é a na nossa que o tapa vem forte, nós, as milhões de Macabéas que esperam o pior ainda acontecer, assistimos ao ciclo da podridão bestificados em nossas poltronas, a boca precisando de dez mãos pra erguer o queixo e fecha-la. É melhor fingir que está tudo bem, afinal de contas poucas pessoas morreram nessa guerrilha não divulgada, nem sequer disfarçada com eufemismos baratos. No Iraque deve ser pior, deus nos livre! Aqui pelo menos não temos terremotos, tsuniami ou outras revoltas da natureza como em outros lugares por aí. Quando morre uma formiguinha de cada vez é menos doloroso pros olhos do que ver o formigueiro quase dizimado com uma bomba atômica. Além disso, aqui ainda há campanhas de caridade, Criança Esperança e tal, os mesmos que ajudam a promover a miséria são os altruístas de plantão. E assim caminhamos, a marcha até o beco sem saída.

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    [quarta-feira, agosto 02, 2006]


    Enquanto eu continuar tentando correr mais do que minhas pernas suportam jamais respirarei o ar da superfície. Mesmo que todas as felicidades vivessem em meu derredor, ainda assim, alguma angústia invadiria meu coração, minha alma, toda a minha carne.
    Se... imaginar se... Minha mais espessa e firme corrente, aquela que prende meus tornozelos em imponentes e ancestrais rochedos, embaralha meu presente, esconde todos os ases. Querer muito e poder pouco, essa é a minha maior angústia. Esperar, esperar, esperar... tentando mexer descontralada e inocentemente, sem critérios ou estratégias, em todas as peças do tabuleiro — talvez um cavalo a mais seria boa ajuda, mas aquele já não pode voltar, agora só resta um, num movimento equivocado a derrota afia sua foice, contudo, como saber se ela não pode ser a salvação?
    E penso se... Assim, o derradeiro pesar das possibilidades senta sobre meus ombros de ossos fracos e prostro-me exausto. Respiro o ar viciado do porvir imaginário. Porém, nenhuma conclusão é capaz de convencer-me concretamente. Apago todas as luzes e me equilibro no alto do fio do muro; e no escuro cairei, tropeçarei na insegurança perante o desconhecido. De um lado há serpentes e do outro escorpiões. Só que mais adiante, de ambos os lados, há antídoto para todas as mais letais peçonhas. Alguma voz me disse em algum sonho de sono leve. E mais leve que pena, ziguezagueando nos braços do mais leve vento, vou caindo em direção ao lodo pegajoso. Agora quero banhar-me com a água mais límpida que há. E nesta fonte espectral recuperarei o vigor, a cor das minhas faces e dos meus lábios. Olho para o pequeno espaço que delimita meus limites e tento galgar para o fundo, em espiral, até alcançar o impenetrável. Acontece que chove muito, há muitas luzes dançantes e barulho de raiva celeste, e eu tenho medo disso.

    Chegou a estóica tempestade.
    Devastadora da tranqüilidade.
    Inimiga dos Paraísos inertes.
    Indiferente às ânsias terrestres.

    Quer renovar, à sua maneira nervosa,
    Inesperadamente, toda tendência sequiosa,
    Infrutífera, que sonha e espera
    A perfeição impossível nesta esfera.

    Não escolhe aonde precipitará sua radial
    Revolta, não sabe o que é bom ou mau,
    Justo ou injusto, só quer o movimento
    Dos sentidos que distraíram-se um momento.

    Postado por :Ricardo / 0 comentários