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Ricardo Campanille

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    [sábado, janeiro 19, 2008]


    Quando eu tinha muitos amigos que gostavam de música como eu, eu treinava meu instrumento e quando eu tirava uma música não via a hora de mostrar pra eles.
    Quando eu comecei a tocar baixo parece que me identifiquei de tal forma com esse instrumento que sempre cativei os ouvidos de quem me escutava, sempre recebi elogios, desde o início, no entanto sempre procurei melhorar, porque sabia que pra chegar aonde eu queria era preciso muito mais.
    Passei por algumas circunstâncias que me fizeram manter uma distância maior do que eu gostaria de meu instrumento. Porém, neste ínterim fui amadurecendo, minhas percepções foram se lapidando, meus gostos foram reforçados nas minhas raízes. E minha tendinite agora se entende com meu instrumento.
    Agora toco muitas músicas que eu gosto de uma maneira que fico orgulhoso. Mas meus velhos amigos já não podem mais me ouvir, talvez nem queiram mais, suas vidas também tomaram rumos diversos. Sempre sinto falta de mostrar o que eu sei pra eles que acompanharam parte do meu progresso. Eu provei um pouco disso essa semana. Minha irmã veio me visitar, conversamos muito, foi bom, matei minha saudade, uma saudade que nunca experimentei em relação aos entes da minha família. A longa distância desperta esses sentimentos.
    Depois de muito conversarmos, mostrei a ela uma música que compus no baixo, não consegui tocá-la bem, estava extremamente cansado, além de que ainda não tinha treinado suficientemente bem para poder fazê-lo. Mas ela compreendeu e eu me senti ouvido, pois a sinceridade dela sempre foi um grande estímulo para mim. Sei que quando ela fala que está ruim é porque realmente está. Eu, na verdade, estava esperando isso e obtive outra demonstração de atitude: uma tímida admiração, me pareceu até incomum, pois por causa da minha ansiedade muitas vezes toquei algo pra ela que eu sabia que ainda eu não reunia condições. Em muitas dessas ocasiões trabalhei duro depois de ouvir seus comentários. Grande parte do que eu sou como músico devo a ela.
    Aos poucos estou conseguindo romper várias barreiras que criei sem querer ao longo do tempo. Minha timidez era uma delas, minha insegurança também, minha falta de sinceridade também, minha covardia também, assim como meus medos, bobos disfarçados de monstros e eu mais bobo acreditava nos meus olhos inocentes.
    O enfrentar todos esses meus defeitos está me deixando mais forte. Sem algumas mudanças de atitude eu jamais poderia ser o Ricardo que estou sendo agora, um que eu nem sequer imaginei.
    Agora sim posso transformar as cores da minha alma em música. Agora sinto a concomitância entre a minha tênue racionalidade e o meu vigor emocional. Agora sinto o equilíbrio que eu havia perdido. Agora sinto a força de cada lado que me comanda e escuto suas vozes com atenção e sei quando devo ouvi-las. Pra construir um castelo é necessário por um tijolo sobre os outro, alternadamente e eu tava empilhando uns aqui, outros ali e já não sabia mais quantos eu já havia espalhado. Estou reunindo todos eles, nem sabia que eram tantos...

    Postado por :Ricardo / 1 comentários