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Ricardo Campanille

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    [Quarta-feira, Março 12, 2008]


    Eu tento ser, mas não sou mais moleque. Não sinto mais o cheiro de espírito jovem em minha pele. Em algumas circunstâncias raras até volta uma ponta desse espírito, mas muito longe de ser plena.
    Acabei por me contentar com a maneira que toco, nunca vou ficar bom como eu sonhei desde o começo, nunca vou conseguir adquirir as habilidades que gostaria, nunca vou ser um músico de verdade, minha vida pelo jeito sempre será essa farsa muito mal representada de tentar ser, a diferença é que agora tenho uma consciência bem iluminada disso tudo.
    Treino todos os dias umas duas horas mais ou menos, pouco tempo, pouco progresso, pouco contentamento, poucas perspectivas de mudanças, pouco estímulo, pouco vigor físico. Ainda me resta o gostar de tocar e é por isso que ainda continuo. É impossível eu ouvir um som que eu curto sem que prontamente não me venha a vontade de tentar aprendê-lo. Estou no escritório, o tempo passa, devora meu tempo, digere minha vontade e me caga mais tarde. Esse detrito é o que resta de mim pra treinar. E sou esse que até hoje não despertou mais do que algumas palavras agradáveis de amigos ou leigos ao me ouvirem. Sou esse que não sabe tocar um terço do que gostaria e que sabe que isso dificilmente vai mudar.
    Cansei de sair em bares ou ir a shows e ficar deslumbrando a possibilidade de eu estar ali, muitas vezes divagando que poderia até fazer melhor do que aquele que está no palco. Ou me admirando com a destreza dos músicos e me empolgando, acreditando que ainda vou chegar lá.
    "Lááááá é bem longe daquiiiiiii..."
    Parece até que todas as notas são minhas inimigas. Tanto estudo, tantas horas de dedicação pra tocar pras paredes, pra ser admirado nada mais que por ninguém. Pra ser castigado vendo tanta gente ruim agradando multidões, dizendo fazer arte quando só o dinheiro e fama é o que importa.
    Desmorona um sonho, aos poucos, desmorona tijolo por tijolo, agregam-se entulhos em pilhas fabulosas, pilhas amargas de se ver, pilhas amedrontadoras.
    Sou apenas mais um roqueiro, apenas mais um desiludido, apenas um cara que enxerga no fundo do olhar de todos que o cercam o sorriso irônico de uma mudez que diz tudo: ainda não desistiu dessa coisa.
    Amanhã continuarei tocando pra mim, com paixão. Mas não sei se daqui pra frente conseguirei ser o mesmo tocador de baixo. Uma tristeza enorme me invadiu, já não sou o mesmo sonhador, aliás nem lembro mais quando sonhei com isso pela última vez, a realidade me fustigou demais. E as cicatrizes que correm em minhas veias machucam demais.

    Postado por :Ricardo / 0 comentários