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Ricardo Campanille

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    [quarta-feira, abril 02, 2008]


    Conexão
    Gostar de Rock faz uma grande diferença na minha vida.
    Primeiramente, tornei meus modos de ser e agir antagônicos aos da massa, o que considero ótimo. Detesto o formigueiro e não só o evito como não faço parte dele. Vejo todos os dias aquela avalanche que não quero compor inundar tudo, querer dominar tudo. Fujo para onde é mais calmo, corro dela, acho que tenho fobia à multidão, mas não dá pra evitá-la, só quero chegar ao meu refúgio.
    Absorto...
    Dentro de um provisório inferno que dura uma hora consigo me desligar de toda a confusão de conversas, passos, músicas inconvenientes, risos, sirenes, balanços desajeitados e incômodos, falta de educação e consciência do bem social e viajo pro passado, entro na minha essência, respiro um ar verde e retrocedo meu processo de amadurecimento, agora estou acima da urbe...
    Acho que eu tinha uns 9 anos quando meu pai achou em suas coisas uma fita que estava guardada há muito tempo, talvez até considerada como desaparecida, ele a ouvia quando era adolescente. O aparelho de som de boca aberta a esperava, meu pai o serviu e ele começou a tocar uma música que estava na metade. Aquela guitarra me surpreendeu como nenhum outro som tinha feito até então. Era lindo, parece até que eu nasci pra gostar dele, ele só estava esperando ser despertado para me despertar. Alguns compassos passaram e surgiu uma voz aguda que me encantou, sem falar naquele ritmo de bateria e aquele algo mais no âmago da música que é o mais imperceptível, porém não menos importante: o baixo.
    Todo aquele harmonioso conjunto de sons me levou a um estado de admiração profunda. Quando acabou a longa música que pra mim parecia ter durado um minuto, perguntei maravilhado pro meu pai o que era aquilo.
    — Led Zeppelin. Respondeu ele com um sorriso e uma pronúncia lenta que parecia expressar o prazer que o som da banda proporciona. Ele entendera a minha admiração.
    Daí até chegar a todos os estilos de Rock que curto e a preferência por Metal é uma longa história que não faz parte do foco neste momento.
    Aos poucos fui conhecendo outras bandas, ora pelo rádio ou MTV, ora quando um amigo me mostrava. E lá pros 13 anos já não queria usar as roupas que a minha mãe gostava de comprar pra mim. Comecei a usar camisetas de banda, calça rasgada, coturno, comecei a deixar o cabelo crescer, a usar adornos de metaleiro e com todas essas mudanças comecei a sentir o preconceito, pois muitas pessoas me olhavam como se eu tivesse acabado de chegar de outro planeta, ou me julgavam negativamente por causa da minha imagem diferenciada das comuns. Com isso, eu comecei a criar meus conceitos, alguns equivocados, outros influenciados e muitos acertados.
    Desde aquela época eu já pensava: porque as pessoas têm que trabalhar usando trajes tão desconfortáveis? Mó calor e precisam usar gravata, calça comprida, sapato e tal. Eu não vou ser assim, a sociedade vai ter que me aceitar como eu sou.
    O resultado disso é que até hoje nunca precisei trabalhar da forma que eu odiava, vou de bermuda quando está calor, já fui com todos os tipo de cabelo que quis usar (os mais loucos possíveis), uso piercings e tenho tatuagem em lugar visível. É o pensamento transformado em fato. É fruto do som que vive em mim.
    E esse som me ensinou a não aceitar o inaceitável que a massa tolera e a questionar ao invés de simplesmente balançar a cabeça e dizer sim, ajudou-me a me livrar das perniciosas influências religiosas que sofri durante minha infância, inspirou-me a ser músico, trouxe-me verdadeiros amigos e a pessoa com quem divido minha vida. É muito difícil eu conseguir pensar em algum aspecto da minha vida que não esteja ligado à música, em especial ao Rock.
    Até meu interesse por literatura adveio da música: o Iron Maiden tem uma música chamada Murders in the Rue Morgue. Quando descobri que esse título era de um conto do Edgar Allan Poe fiquei muito curioso em ler o livro desse cara. E não é que alguns meses depois, fuçando nos livros da minha tia Ester, encontrei o próprio! Como foi dito no filme Lady in the Water, tudo está conectado, todos nós estamos um ao outro e a tudo que nos cerca.
    Aquele livro foi um dos gatilhos que disparou contra algumas tendências que eu tinha de crer em fantasias. Seus contos repletos de mistérios levam-nos a considerar hipoteticamente que alguma influência sobrenatural é a causa daqueles acontecimentos surpreendentes, quando tudo o que se sucede, na verdade, obedece a uma grande lógica.
    E nesse desencadear de idéias você fica propenso a buscar mais e mais. Então, música, livros, filmes e vida se comunicam, trazem respostas e perguntas sem respostas e tudo se torna indivisível e cresce cada vez mais, um complementando o outro, um sendo o degrau do outro, um envolvendo o outro e nisso eu cresço e percebo o quão poderosamente a música age em mim e o quanto tudo que ela envolve faz abrir caminhos que me direcionam à realização de meus desejos.

    Postado por :Ricardo / 1 comentários