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Ricardo Campanille

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    [quarta-feira, maio 14, 2008]


    Domingo, após as visitas às nossas famílias, pegamos o metrô para voltar pra casa. Vagões cheios, obviamente, naquele dia.
    A Renata se sentou num acento reservado, já que não havia ninguém cuja característica lhe reserva o direito de faze-lo, e eu permaneci de pé, na frente dela.
    Algumas estações passaram quando entrou uma mulher, que aparentava ter uns trinta e poucos anos, com a sua pequenina filha. Nessa mesma parada desembarcaram algumas pessoas, então, a Renata mudou para o banco contíguo e não reservado, eu me sentei ao lado dela, a mulher que acabara de entrar colocou sua filha no banco onde minha esposa estivera e ficou parada na frente da menina, bem onde eu estava até há pouco. Todo esse arranjo foi feito mecânica e rapidamente. O trem apitou, fechou as portas e prosseguiu com seu curso.
    A criança de pele escura e mal-tratada me fitou por um tempo que perdura além do comum entre pessoas desconhecidas. Eu olhava nos olhos dela e tentava imaginar o que se passava naqueles pensamentos pueris. Será que ela está admirada com os meus piercings ou com a minha barba? Um absoluto silêncio tomou conta do meu mundo naquele instante, enquanto tudo ao redor mantinha-se inabalável. Desviei meu olhar para a direção da Renata, voltei a cabeça para o lado oposto, meus olhos passaram pelos da menina que mantinha insistentemente seu olhar sobre mim, olhei rapidamente para a mãe dela que também olhou para mim de soslaio e, finalmente, voltei para os olhos da garotinha.
    O silêncio já estava perturbador diante daquele olhar, ou eu ignorava ou puxava alguma conversa. Então, quando pensei em perguntar-lhe o nome ela que me dirigiu esta pergunta. Respondi e quis saber o dela. Não ouvi por causa do barulho de múltiplas conversas e atritos metálicos, mas de fato não queria saber. Ela começou a falar sem parar, sem se preocupar se o excesso de barulho permitia que eu a escutasse. E dentre tantas coisas só consegui deter quatro informações: ela tinha três anos, gostava de sambalelê, seu pai tinha fugido de casa e ela sabia dançar o créu. A última informação foi a mãe quem insistiu para que ele me contasse, quando num dado momento perguntei para a extrovertida criança se ela gostava de dançar.
    Divaguei. Meus pensamentos vagaram no meio daquele burburinho. Como será o futuro de uma criança sem pai, que tem uma mãe com mau gosto e se orgulha de ver a filha pequena imitar movimentos lúbricos quando deveria se entreter com algo lúdico? E como uma faísca meus pensamentos sumiram dali e foram pra outras esferas, pintavam imagens sórdidas de prostituição infantil, a inocência sendo extinta pela falta de escolha, nessa pintura grotesca milhares delas espalhadas pela urbe, mendigando nos faróis, estraçalhando lixos por causa da fome, cheirando cola por irredutíveis e tristes motivos, conhecendo o que é usar uma arma, aprendendo que a violência é um meio pra sobrevivência...
    Incontáveis realidades dolorosas me visitaram naquele instante. Como que num microscópio de imaginação enxerguei toda a desigualdade social crescendo e me assustando como nunca, advindo de séculos e séculos de vilipêndio à beleza humana.
    E ainda tem gente que tenta me convencer que o deus (letra minúscula mesmo!) bíblico existe e é justo! Se esse ser realmente existisse seria o mais perverso de todos, já que podendo fazer somente o bem permite o domínio do mal em escala exageradamente ampliada.

    Postado por :Ricardo / 0 comentários